Antes que discussões surjam em público, ensaiamos mentalmente como se fosse um roteiro. Praticamos nossas respostas, aprimoramos nossos argumentos e nos preparamos para esse embate verbal para não sermos pegos de surpresa quando o confronto finalmente acontecer. No entanto, quando o momento chega, às vezes temos lapsos de memória e nos vemos obrigados a improvisar. Antecipar discussões em um relacionamento não é um reflexo trivial, e uma sexóloga explica essa preparação mental para conflitos.
Preparar argumentos mentalmente é um hábito comum.
Existem discussões que surgem do nada, e outras que simulamos em nossas mentes muito antes de acontecerem. É um pouco como um aquecimento antes da luta. Não queremos que nossas palavras ultrapassem nossos pensamentos, ou que nossa raiva nos faça dizer coisas das quais nos arrependeremos no segundo seguinte.
Então, ensaiamos a cena com antecedência, imaginando as possíveis reações do nosso parceiro e criando um roteiro digno de cinema. De fora, parece quase uma atuação teatral ou um acesso de loucura. Se, quando crianças, contamos uns aos outros histórias imaginárias repletas de unicórnios e fadas mágicas, como adultos, improvisamos diálogos fictícios entre nós e nossa metade sobre algo tão trivial quanto uma rotina de lavanderia bagunçada ou uma tarefa doméstica malfeita.
Nos pegamos conversando sozinhas, revisando nossos argumentos, ensaiando nossas frases como se estivéssemos nos preparando para uma importante prova oral ou para um julgamento. Esse ensaio extremamente realista do conflito iminente não é "delírio de uma garota perfeccionista", nem atividade de um "psicopata", como às vezes se sugere. No TikTok, mulheres até brincam com essa prática, legendando os vídeos com "Estou praticando argumentos com meu namorado" ao som de "Rap God", do Eminem. É quase um rito de passagem. Preparar argumentos mentalmente, como um balão de fala em uma história em quadrinhos, tem valor real para os envolvidos. É uma forma de manter o controle e se tranquilizar. Em psicologia, a aplicação é diferente.
Uma forma inconsciente de evitar conflitos.
Elaborar argumentos na cabeça, mesmo que eles nunca se concretizem, não é apenas um clichê de comédia romântica. É comum, especialmente entre as mulheres. Pelo menos, essa é a conclusão a que chegou a sexóloga Gigi Engle nas páginas da Refinery29 . E não, não é sinal de imaginação fértil, mas sim uma tendência a minimizar sentimentos e reprimir frustrações.
"Algumas mulheres criam cenários e discussões em suas cabeças para evitar conflitos, porque somos ensinadas a reprimir esses sentimentos", aponta a especialista. Em resumo, preferimos encenar discussões mentalmente e resolvê-las apenas superficialmente, em vez de expressá-las claramente ao nosso parceiro. E não é por medo das consequências, mas sim porque dizemos a nós mesmas "não vale a pena" ou "estou exagerando". É mais fácil nos repreendermos imaginariamente do que repreendê-lo de verdade, às vezes até mesmo para o outro lado da sala.
Mas também é uma forma de autossabotagem.
Preparar argumentos mentalmente nos dá uma certa sensação de poder no momento, mas esse hábito pode se voltar contra nós rapidamente. "Em relacionamentos heterossexuais, espera-se que amenizemos as coisas", explica a especialista. Como resultado, podemos perder o sono para suavizar nossas críticas, preparar frases de abertura levemente provocativas e antecipar as respostas do nosso parceiro. Enchemos nossas mentes com argumentos "fantasmas" para proteger nosso parceiro ao máximo no grande dia.
Paradoxalmente, ao priorizarmos o bem-estar do nosso parceiro, negligenciamos o nosso próprio. Realizamos reuniões de crise, fazemos brainstorming com as amigas para obter outras opiniões e até encenamos novelas no banheiro por puro altruísmo. Isso não é um ato de amor; é autossabotagem.
Quando nos preparamos mentalmente para discussões, ficamos na defensiva, disparamos insultos e imaginamos o pior cenário possível como se não houvesse outra saída. Recorremos ao pensamento dramático sem jamais considerar uma alternativa pacífica, quando, na vida real, seria simplesmente uma questão de diálogo maduro e construtivo . Às vezes, imaginamos que levaremos a melhor e venceremos o jogo de "quem está certo". Novamente, a especialista ressalta que isso não é saudável. Ela nos lembra que a união é melhor que a divisão.
Planejar discussões na sua cabeça pode ser contraproducente e fazer mais mal do que bem a um relacionamento. Uma psicóloga entrevistada pela revista Time recomenda agendar as discussões em vez de ficar de mau humor em silêncio ou gritar um com o outro.
