Mudar o status de relacionamento no Facebook de "solteira" para "em um relacionamento" costumava ser quase um símbolo de sucesso, até mesmo uma forma de aumentar a popularidade. Naquela época, postar fotos açucaradas de si mesma de mãos dadas ou de braços dados era a maior conquista. Mas agora, essas fotos, transbordando amor e documentando toda a vida do casal, são menos visíveis em nossos feeds, como se ter um namorado tivesse se tornado algo fora de moda.
Esconder o namorado em vez de exibi-lo.
"Para viver feliz, viva escondido ." Esse ditado nunca foi tão verdadeiro. Nos tempos dos tênis Vans sabor morango e dos tocadores de MP3, as garotas exibiam seus parceiros como troféus. Mal tinham oficializado o namoro e já estavam postando declarações de amor melosas em seus perfis do Facebook. Marcavam os parceiros em posts explícitos e compartilhavam cada passeio, com direito a fotos melosas. Assistíamos a essa paquera de perto e quase pegávamos a pipoca. Toda a presença delas nas redes sociais girava em torno dos namorados e parecia uma novela mexicana.
Mas os tempos mudaram. Hoje, as mulheres anseiam por mais discrição. Enquanto antes estampavam o rosto do amado por toda a internet, agora deixam sua presença ser apenas sugerida. Elas não proclamam mais aos quatro ventos "Estou em um relacionamento", e até mesmo guardam essa realidade romântica para si mesmas. Os raros vislumbres de sua história de amor se limitam a impressões digitais, silhuetas ou um borrão artístico. Não é apenas para proteger sua privacidade que elas eclipsam seus parceiros, mas também para preservar sua imagem. Porque parece que, em 2026, estar em um relacionamento não é mais um rótulo legal, mas um sinal de que está ultrapassado.
As mulheres, conscientes de sua independência, não querem mais se definir por meio de seus parceiros, mas também não desejam adquirir uma reputação como a de Bridget Jones. Em outras palavras, elas desfrutam dos benefícios sociais de estar em um relacionamento sem cair na armadilha de se apegarem excessivamente à outra metade. Elas estão se afastando da imagem estereotipada da mulher obcecada pelo parceiro. A jornalista Chante Joseph, que escreve para a Vogue britânica , analisou o que equivale a uma versão 2.0 de um boicote romântico.
Mais do que uma tendência, é um estado de espírito.
Em poucos anos, as mulheres passaram da apaixonada Julieta à rebelde Elizabeth Bennet. Longe de tornarem tangível sua dependência emocional e deixarem rastros dela em seus perfis online, elas permanecem cautelosas com suas informações românticas. A jornalista, que trouxe à tona essa mudança de mentalidade e essa autocensura entre casais na era digital, perguntou a seus 65 mil seguidores sobre o assunto.
E se as mulheres estão sendo contidas com emojis de coração e fotos carinhosas, não é apenas para parecerem independentes ou modernas. É também porque temem que o destino as castigue por essa demonstração de afeto. "Algumas temiam o 'mau-olhado', convencidas de que mostrar sua felicidade provocaria um ciúme tão intenso que acabaria destruindo seu relacionamento", explica a jornalista. Outras também previam o término e a dolorosa tarefa de apagar tudo online.
Todas essas desculpas escondem um argumento comum, porém não dito: estar com um homem deixou de ser uma dádiva e se tornou um fardo. Ter um namorado é mais vergonhoso do que sair com a blusa do avesso ou pasta de dente na boca. E isso não é feminismo radical, apenas o reflexo de um cansaço mais profundo.
Ser solteiro é mais popular do que estar em um relacionamento.
Durante o ensino médio, ter um namorado era quase uma bênção, uma conquista social. A garota comum da escola de repente se tornava o centro das atenções nos corredores, a figura descolada que todos adoravam por trás do seu armário. Como se esse namorado casual fosse a fonte do sucesso, como se uma garota precisasse de um homem para se sentir completa, até mesmo viva.
É evidente que o "efeito namorado" já não funciona. Além disso, as normas estão se invertendo, em benefício das mulheres solteiras. Essas mulheres, antes vistas envelhecendo sozinhas cercadas por seus inúmeros gatos, agora são mais invejadas do que aquelas presas a seus parceiros. Talvez porque elas personifiquem a liberdade, a independência e o respeito próprio — qualidades que às vezes se perdem na correria da vida a dois. Nos Estados Unidos, viver em casal não é mais a norma para um número crescente de pessoas entre 25 e 34 anos, que optam por permanecer solteiras: esse número dobrou em meio século.
Fotos doces e açucaradas de casais já não fazem os corações palpitarem online; provocam náuseas. Essa reticência sentimental é quase sintomática. Como se um namorado fosse um pecado (nem tão) fofo. O próprio casal é um mata-paixão.
