De geração em geração, certas inseguranças se infiltram silenciosamente nos laços familiares. Sem sempre perceber, as mães transmitem dúvidas sobre o corpo, a aparência ou o valor pessoal para suas filhas, criando uma corrente invisível que influencia profundamente a autoestima.
Uma transmissão frequentemente inconsciente
Na maioria das vezes, as mães não têm a intenção de magoar as filhas. Elas próprias cresceram com comentários, padrões ou expectativas que, por vezes, eram opressivos: a pressão para ser magra, o ideal de feminilidade, o medo de não ser "suficiente". Essas experiências deixam cicatrizes emocionais. Sem se darem conta, podem então projetar as suas próprias inseguranças nas filhas.
Uma frase aparentemente inocente — "Cuidado com o que você come", "Você engordou um pouco", "Você deveria endireitar a postura" — pode, no entanto, se tornar uma mensagem poderosa. Ela fala não apenas do corpo, mas também da autoestima. Aos poucos, a garota aprende a se enxergar através dessa lente crítica, mesmo que a intenção fosse protetora.
Quando o amor se mistura com as expectativas.
O vínculo entre mãe e filha costuma ser um dos mais fortes que existem. É repleto de amor, mas também de expectativas implícitas. Uma mãe, por vezes, deseja que a filha evite os seus próprios erros, que tenha mais sucesso, que sofra menos. Essa proteção, contudo, pode transformar-se num controlo subtil: sobre a alimentação, a aparência e as escolhas de estilo de vida. A filha, na busca de aprovação e reconhecimento, pode internalizar essas expectativas como se fossem os seus próprios padrões. Aprende, então, a julgar-se com severidade: não é suficientemente magra, não é suficientemente bonita, não é suficientemente perfeita. Essas inseguranças não provêm de uma carência real, mas de um olhar externo internalizado.
Uma rivalidade silenciosa
Algumas teorias psicológicas sugerem uma rivalidade inconsciente entre mães e filhas. Não uma rivalidade consciente ou deliberada, mas uma tensão em torno da identidade feminina. A mãe transmite o que significa "ser mulher", com tudo o que isso implica: forças, desejos, mas também medos, frustrações e feridas. Se essas emoções não são verbalizadas, podem ser expressas indiretamente por meio de críticas, comparações ou expectativas irreais. A filha pode então sentir uma pressão constante, sem sempre compreender sua origem, o que mina sua autoconfiança e sua relação com o próprio corpo.
Quebrando a corrente: uma abordagem consciente e gentil.
A boa notícia é que essa transmissão não é inevitável. A conscientização já é um primeiro passo rumo à libertação. Ao reconhecer suas próprias inseguranças, uma mãe pode evitar transmiti-las. Ao ousar expressar seus sentimentos em palavras, uma filha pode se libertar. A terapia costuma desempenhar um papel valioso nesse processo. Ela permite explorar a história familiar, compreender lealdades tácitas e diferenciar o que lhe pertence daquilo que lhe foi transmitido. Esse trabalho promove a individuação: você se torna plenamente você mesma, sem carregar os medos ou as expectativas de outra geração.
Para concluir, é importante esclarecer que essas transmissões não são apenas negativas. Bondade, resiliência, confiança e a liberdade de ser você mesmo também podem ser transmitidas. Reconhecer essa corrente invisível significa resgatar seu poder interior. Ao se permitir amar a si mesmo plena e incondicionalmente, você se liberta não apenas para si, mas também para aqueles que (talvez) venham depois de você. Seu corpo, sua história e seu valor merecem ser celebrados — hoje, amanhã e sempre.
