Esse hábito, frequentemente criticado, é na verdade uma forma de meditação.

Em um terraço de café, no metrô ou sentados em um banco, praticamos essa arte constantemente. Quando não estamos grudados em nossos celulares, sentimos um prazer travesso em observar os estranhos que passam por nós com passos apressados. Chegamos até a inventar vidas para eles, imaginando suas rotinas diárias ou tentando adivinhar suas profissões. De uma perspectiva externa, esse passatempo simples pode parecer um julgamento equivocado ou fofoca. No entanto, essa atividade contemplativa, frequentemente associada à velhice ou aos vilões fictícios mais notórios, tem algo de muito reconfortante.

Observar as pessoas é tão benéfico quanto uma sessão de ioga.

Às vezes, desviamos o olhar dos nossos celulares para nos reconectarmos com a realidade ao nosso redor. Seja esperando o próximo trem na plataforma ou saboreando um matcha latte em uma rua movimentada, assistimos ao filme que se desenrola diante de nós e, às vezes, quase precisamos de um balde de pipoca para acompanhar esse ritual particularmente prazeroso. Observar pessoas como James Bond por trás de seus óculos escuros é um passatempo universal praticado em todos os momentos livres.

É um espetáculo quadridimensional que rivaliza facilmente com os vídeos questionáveis do TikTok e o conteúdo virtual encontrado enquanto navegamos pelas redes sociais. Durante essa inspeção de espaços de lazer, vemos casais apaixonados de mãos dadas, grupos de amigos em bicicletas cujas bolsas barulhentas sugerem uma noite de bebedeira, e homens de negócios de terno debruçados sobre planos de negócios em seus selins. Sentimos uma pontada de compaixão por uma mulher da idade de nossa avó alimentando um bando de pombos e sorrimos bobamente ao ver uma garotinha com lindas trancinhas soprando dentes-de-leão com toda a sua força.

Quem é observado de relance sente-se como se estivesse sendo examinado da cabeça aos pés e espontaneamente imagina uma sessão de fofocas como aquelas dos filmes adolescentes. No entanto, essa atividade, da qual os idosos são os melhores representantes, nem sempre é acompanhada de sussurros ou risadas zombeteiras. É um momento de desapego, em que o cérebro realmente desliga. "Observar as pessoas é como meditar de olhos abertos", diz a Dra. Stephanie Steele-Wren, psicóloga clínica, em entrevista ao Bustle . Ela continua: "Você não cria expectativas; simplesmente observa o mundo passar."

Como podemos transformar esse gesto simples em uma verdadeira atividade de bem-estar?

Observar as pessoas sentado confortavelmente, em uma cadeira velha ou em um pedaço de grama recém-cortada é uma prática espiritual amplamente subestimada. Não é preciso sentar-se em posição de lótus em um colchonete de espuma ou refugiar-se em um mosteiro tibetano para experimentar tranquilidade. Esse ritual, que não exige nenhuma habilidade além de aquietar os pensamentos, é praticamente automático. Embora não haja maneiras certas ou erradas de observar os transeuntes durante um intervalo para o almoço ou um passeio de domingo, ainda é possível otimizar essa caminhada mental.

A especialista oferece algumas dicas para transformar este momento comum em um interlúdio restaurador, um tempo para reflexão. Primeiro, ela aconselha encontrar um lugar confortável com um amplo campo de visão: um café com entrada para a rua, um banco na entrada de um parque ou o balcão de um restaurante. É preciso haver distrações suficientes para evitar que você seja dominado por pensamentos intrusivos. Guarde o celular na bolsa para se concentrar no momento presente.

Reserve um tempo para se imergir no ambiente ao seu redor. Movimentos, olhares, atitudes ou até mesmo o ritmo com que as pessoas se movem podem se tornar pontos de atenção simples. A ideia não é interpretar ou tirar conclusões, mas sim acolher o que você percebe com curiosidade e leveza. Em vez de julgar a mulher que anda como se estivesse em "O Diabo Veste Prada" ou o homem de calças harém procurando desesperadamente por um cigarro, simplesmente observe. "Em vez de se forçar a 'esvaziar a mente', deixe o mundo ao seu redor fazer sua mágica. Então, tudo o que você precisa fazer é sentar e observar", explica o especialista.

Para provar que a meditação pode assumir diferentes formas.

No imaginário popular, a meditação costuma ser reduzida a sentar-se na posição de lótus sobre um colchonete de espuma, inalando incenso e ouvindo o som de tigelas tibetanas. No entanto, a serenidade não vem apenas de uma playlist intitulada "Chuva Torrencial" ou de uma postura que demonstra flexibilidade. Embora nas redes sociais a palavra "meditação" evoque imagens de mulheres curvando-se para o sol, estimulando seus chakras e se alongando como chiclete, na realidade, existem dezenas de maneiras de encontrar a paz interior. E isso não envolve necessariamente fontes zen, estátuas de Buda e o som de sinos.

“Muitas pessoas associam meditação a ficar sentado em silêncio no chão por algumas horas, como fazem os monges budistas”, acrescenta Steele-Wren. “Mas essa é apenas uma forma de meditação entre muitas”, garante ela. Observar as pessoas se encaixa perfeitamente nessa abordagem de bem-estar. Esse passatempo, que preenche os dias monótonos dos aposentados e que nos foi ensinado por Gossip Girl, é semelhante à meditação passiva.

Num mundo saturado de notificações, conteúdo e exigências constantes, olhar para cima torna-se quase um ato de suave resistência. Observar os outros é também, indiretamente, uma forma de se reconectar consigo mesmo: com o próprio ritmo, a própria capacidade de atenção, a própria maneira de experienciar o mundo sem filtros digitais. Há nesse gesto uma espécie de ancoragem discreta, quase invisível, mas muito real. Contemplando insetos na natureza ou observando pessoas em suas vidas, uma sensação de calma está por toda parte.

Émilie Laurent
Émilie Laurent
Como uma mestra das palavras, manipulo recursos estilísticos e aprimoro diariamente a arte das frases de efeito feministas. Ao longo dos meus artigos, meu estilo de escrita ligeiramente romântico oferece algumas surpresas verdadeiramente cativantes. Deleito-me em desvendar questões complexas, como um Sherlock Holmes moderno. Minorias de gênero, igualdade, diversidade corporal… Jornalista na vanguarda, mergulho de cabeça em temas que inflamam o debate. Viciada em trabalho, meu teclado é constantemente posto à prova.

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