Muitas vezes, tudo começa com sinais sutis. Um comentário ríspido durante o jantar, um vídeo compartilhado sem explicação, uma risada zombeteira ao ouvir a palavra "feminismo". Aos poucos, algumas mães dizem que percebem a mudança de atitude do filho, a ponto de não mais reconhecerem o vínculo que consideravam forte e óbvio.
Rachaduras invisíveis no dia a dia
Essas tensões não surgem de um único evento, mas de um acúmulo de fatores. A linguagem torna-se mais áspera, as opiniões se endurecem e as mulheres são, por vezes, descritas como "adversárias" ou "figuras suspeitas". Nesse clima, a mãe, sem querer, torna-se o principal alvo de um discurso que desvaloriza as mulheres em geral, mesmo quando não é dirigido diretamente a ela.
Uma ideologia agora levada a sério.
Em 21 de janeiro de 2026, o Alto Conselho para a Igualdade de Género publicou um relatório abordando uma "ameaça masculinista". O documento descreve um sistema ideológico estruturado, baseado na supremacia masculina e na hostilidade contra as mulheres. Os números ilustram a dimensão do fenómeno: 17% dos franceses acreditam no sexismo hostil, com uma diferença significativa entre homens (23%) e mulheres (12%). O relatório destaca ainda que 84% das vítimas de cibersexismo são mulheres, confirmando a extensão da violência online.
Um fosso geracional cada vez maior
Entre os jovens de 15 a 24 anos, as diferenças de percepção são particularmente acentuadas. 75% das mulheres jovens acreditam que ser mulher é uma desvantagem na sociedade, em comparação com 42% dos homens jovens. Além disso, 39% dos homens ainda consideram o feminismo uma ameaça à sua posição. Essa disparidade alimenta uma visão competitiva das relações de gênero: a igualdade é percebida como um jogo de soma zero, em que o avanço dos direitos das mulheres é visto como uma perda para os homens. Nesse contexto, as tensões familiares são apenas um reflexo de uma divisão mais ampla.
Quando as redes sociais moldam as percepções
Parte dessa radicalização ocorre online. Plataformas como TikTok, X (antigo Twitter) e YouTube frequentemente servem como portas de entrada para conteúdo focado em relacionamentos, sucesso ou autoconfiança, que gradualmente descamba para uma retórica hostil. O perigo reside não apenas no conteúdo em si, mas também em seu sistema de recomendação, que aprisiona os usuários em bolhas homogêneas. Um estudo qualitativo britânico da Ofcom descreve uma "manosfera" fragmentada, onde o isolamento social reforça as ideias mais radicais.
Compreender sem trivializar.
Nem toda angústia adolescente leva ao masculinismo, mas quando a frustração pessoal se transforma em rejeição das mulheres, ocorre uma mudança. As mulheres se tornam alvos simbólicos e as vozes femininas são desacreditadas.
Diante dessa situação, a tentação de desmantelar a família pode parecer óbvia. No entanto, alguns especialistas recomendam manter o diálogo sem dar crédito a declarações hostis, solicitar fontes e estabelecer limites claros sobre o que constitui respeito. Por fim, as instituições enfatizam que a solução não pode depender apenas das famílias. A educação sobre relacionamentos e uma melhor regulamentação das plataformas online são apresentadas como ferramentas essenciais.
Em última análise, a questão vai muito além da relação mãe-filho: trata-se de como uma sociedade pode preservar o diálogo sem permitir que uma visão de mundo se consolide, tanto na esfera privada quanto online, onde as mulheres se tornam adversárias.
