"Dismorfia financeira": este transtorno pouco conhecido distorce sua relação com o dinheiro.

Você ganha bem, mas a ansiedade financeira o persegue como uma sombra. Sente-se culpado após cada compra ou, ao contrário, cede a compras compulsivas para se tranquilizar. Essas contradições refletem um fenômeno psicológico ainda pouco conhecido: a dismorfia financeira. Inspirada na dismorfia corporal, essa distorção cognitiva perturba sua percepção da sua situação financeira.

Duas faces da mesma desordem: controle ou fuga?

A dismorfia financeira se manifesta de duas maneiras opostas. Algumas pessoas adotam uma abordagem financeira hipervigilante: verificam compulsivamente as contas, têm um medo irracional de ficar sem dinheiro e dificuldade em gastar sem se estressar. Nesse padrão, o prazer e os projetos pessoais são frequentemente sacrificados em nome da "boa administração".

Outros, pelo contrário, entram num ciclo de fuga: compras impulsivas, gastos excessivos para manter uma imagem social ou para compensar uma sensação de mal-estar. Em casos extremos, essa fuga pode levar ao endividamento ou ao isolamento devido à vergonha da sua situação.

Esses comportamentos geram estresse crônico com repercussões tangíveis na saúde mental: ansiedade persistente, fadiga emocional e, às vezes, depressão. Portanto, é essencial reconhecer os sinais antes que o ciclo vicioso se instale. Esse transtorno afeta particularmente pessoas com menos de 35 anos, que frequentemente se deparam com padrões sociais inatingíveis. Segundo diversos psicólogos, quase 4 em cada 10 jovens apresentam sinais de dismorfia financeira.

Redes sociais: um espelho distorcido

Um dos principais fatores que contribuem para esse transtorno é a comparação constante nas redes sociais. Férias dos sonhos, sucessos espetaculares, a estética da riqueza: essas imagens impõem padrões irreais. Um estudo da revista Psychologies revela que 82% dos jovens adultos subestimam sua situação financeira após exposição prolongada às redes sociais.

O resultado: um sentimento injustificado de inadequação e insatisfação persistente, mesmo quando suas finanças estão objetivamente estáveis. Essa influência externa torna ainda mais difícil distinguir entre a realidade e a percepção distorcida. Torna-se, então, crucial analisar suas fontes de informação e adotar uma visão mais compassiva de si mesmo.

Origens invisíveis: feridas e perfeccionismo

A dismorfia financeira não surge sem causa. Pode ter origem num passado marcado por insegurança económica, como o desemprego dos pais, um divórcio litigioso ou instabilidade financeira durante a infância. Uma educação financeira que gera ansiedade, associando o dinheiro ao perigo ou à vergonha, também pode contribuir para esta distorção. Por fim, traços de personalidade como ansiedade generalizada, perfeccionismo ou síndrome do impostor reforçam este sentimento de vulnerabilidade económica. Estes fatores criam uma perceção distorcida da realidade, em que se sente sempre "atrasado" ou "fora do comum", apesar de ter uma base financeira sólida.

Quebrando o ciclo: clareza e reconstrução

Superar a dismorfia financeira exige restabelecer uma ligação saudável entre a percepção e a realidade. Diversas estratégias podem ajudar:

  1. Realize uma auditoria objetiva das suas finanças ao longo de três meses, seja sozinho, com um profissional neutro ou através de uma aplicação de acompanhamento.
  2. Utilizando a terapia cognitivo-comportamental para desconstruir pensamentos catastróficos e padrões de ansiedade.
  3. Desconecte-se de conteúdo tóxico, revisando suas assinaturas e escolhendo contas que promovam transparência ou sobriedade financeira.

Um "consultor de orçamento" independente ou os recursos de associações especializadas também podem oferecer orientação prática e apoio.

Em resumo, a dismorfia financeira ilustra uma tensão geracional: a sensação de insegurança em uma sociedade de abundância. Comparar-se a modelos irreais cria uma ilusão de fracasso onde a realidade costuma ser bastante satisfatória. Recuperar uma relação saudável com o dinheiro depende menos da riqueza do que do autoconhecimento e da aceitação das próprias limitações. O dinheiro não é um fim em si mesmo, mas uma ferramenta. E, nesse contexto, a lucidez é o melhor remédio contra a ilusão e a culpa.

Clelia Campardon
Clelia Campardon
Formada pela Sciences Po, tenho uma verdadeira paixão por temas culturais e questões sociais.

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